Crise familiar
Ex-primeira-dama relatou telefonema ríspido com o senador, criticou a aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará e negou ter condicionado apoio à candidatura de Flávio a um pedido público de desculpas.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) publicou um vídeo nas redes sociais em que afirmou ter sido “apunhalada” e humilhada por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro como candidato à Presidência nas eleições de outubro. A declaração expõe mais um capítulo da crise interna no PL e da tensão entre Michelle e os filhos do ex-presidente.
No vídeo, Michelle detalhou uma conversa por telefone que teve com Flávio após participar de um evento no Ceará, no fim do ano passado. Na ocasião, ela havia criticado a articulação do PL no estado para viabilizar uma aliança com Ciro Gomes (PSDB), que é pré-candidato ao governo cearense.
“Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e maltratou ao telefone”, afirmou Michelle.
Segundo a ex-primeira-dama, Flávio teria dito que seria melhor ela ficar fora das decisões do partido. Ela também afirmou que o senador disse que ela “havia chegado ontem” e que não entendia de política.
“Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante”, relatou.
Crítica à aliança com Ciro Gomes
Michelle voltou a criticar a aproximação entre o PL do Ceará e Ciro Gomes. Segundo ela, a composição no primeiro turno não seria coerente com o discurso político defendido pelo grupo bolsonarista.
A ex-primeira-dama afirmou que Ciro já fez ataques duros a Jair Bolsonaro e aos filhos do ex-presidente. Ela citou declarações anteriores em que o ex-governador teria chamado Bolsonaro e seus filhos de corruptos e bandidos.
“Não estou exigindo que se desfaça nenhuma aliança no Ceará, mas que adiem para o segundo turno”, disse Michelle.
Ela afirmou ser contra a articulação, mas ponderou que, se o objetivo da direita for se unir para derrotar o PT, a aliança deveria ocorrer apenas em uma eventual segunda etapa da disputa.
“A coerência obriga que isso aconteça apenas no segundo turno. É preciso dar chance ao candidato que verdadeiramente se enquadra e defende os nossos valores”, declarou.
Michelle defende o apoio a Eduardo Girão (Novo) no Ceará, nome que ela considera alinhado ao campo conservador.
Michelle diz ter sido alvo de ataques “premeditados”
No pronunciamento, Michelle também afirmou que, após sua manifestação no Ceará, Flávio e outros filhos de Jair Bolsonaro fizeram publicações semelhantes contra ela. Para a ex-primeira-dama, a reação pareceu “premeditada”.
Ela disse ter visto postagens de Flávio nas redes sociais com “palavras duras” e “tom agressivo” em defesa de André Fernandes, presidente do PL no Ceará.
“Para ele e alguns que o cercam, eu não entendo de política. Tudo bem, eu me recolhi”, afirmou.
Michelle disse que, desde o episódio, Flávio não a procurou mais. Ela também afirmou que decidiu não procurá-lo porque estaria respeitando o que ouviu na conversa.
“Eles me tratam como se eu fosse idiota, como se eu fosse alguém que chegou ontem, mas eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam”, declarou.
Ex-primeira-dama nega exigir pedido de desculpas
Parte dos aliados de Jair Bolsonaro tem cobrado uma participação mais ativa de Michelle na pré-campanha de Flávio à Presidência. Nos bastidores, também circularam versões de que ela estaria condicionando o apoio a um pedido público de desculpas.
Michelle negou essa informação no vídeo. Segundo ela, nunca cobrou nem condicionou seu apoio a qualquer retratação pública.
“Eu nunca pedi, cobrei ou condicionei desculpas públicas de ninguém. Não preciso disso. Eu já liberei o perdão faz muito tempo”, afirmou.
A ex-primeira-dama, no entanto, disse que perdoar não significa esquecer ou retomar uma relação como se nada tivesse acontecido.
Michelle cita ataques vindos do exterior
Sem citar nomes, Michelle também afirmou que sofre ataques diários de um grupo que está no exterior. Ela disse que algumas dessas pessoas aparecem em fotos com Flávio Bolsonaro.
A ex-primeira-dama afirmou que os ataques tentam retirar de seu nome o sobrenome Bolsonaro, como forma de atingi-la. Ela disse que isso não a abala, mas demonstrou preocupação com os efeitos sobre sua filha adolescente, Laura.
“Será que eles pensam no que estão provocando na vida da minha filha? Ela é uma adolescente que acompanha tudo, que lê tudo e que sente tudo”, afirmou.
Michelle disse ainda que esse tipo de comportamento transforma tudo em disputa política e ignora os impactos humanos da exposição pública.
“Para eles tudo é política, e uma política que não existe em função do ser humano. Esse tipo de política não serve para nada além de egoísmo”, declarou.
Relação com Flávio está estremecida
Michelle também afirmou que não mantém diálogo com Flávio Bolsonaro, apesar de o senador frequentar sua casa com regularidade.
“Flávio vai à minha casa toda semana, mais de uma vez. Se ele realmente quisesse falar comigo, já teria falado”, disse.
A fala reforça o distanciamento entre a ex-primeira-dama e o senador em um momento estratégico para o PL, que tenta organizar a disputa presidencial e os palanques estaduais para as eleições de outubro.
Com o vídeo, Michelle expôs publicamente a crise dentro do grupo bolsonarista e deixou claro que o impasse no Ceará ultrapassou a esfera partidária, atingindo diretamente as relações familiares e a construção política em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro.










